segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A voz luciana

O nosso Brasil foi sacudido de muitas formas do ano passado para cá, em particular, com as últimas eleições. Eu também fui, e de uma forma vívida. De um modo vívido porque um sentimento sadio de indignação me levou a pensar e a sentir as implicações dessas forças para o futuro. Eu não sou militante na política, tampouco em qualquer outro segmento da atividade humana. Entretanto, carrego dentro de mim o desejo ardente de antes da minha morte terrena deixar algo para as próximas gerações, uma centelha, um pingo d’água. Pequeno, porque sou uma parte ínfima da grande realidade, mas uma contribuição que dedico e dedicarei esta minha existência. Sou espiritualista, estudo filosofia da psicologia, e tenho meus projetos nessas áreas.
Nos últimos meses, uma voz de coragem ficou (e está) na memória de muitos brasileiros. Debatendo, essa voz enfrentou homens, preconceituosos, e os mais destacados de seu âmbito, a política. Uma voz que, não tanto pelo seu sotaque marcante, mas pelo vigor e pela convicção dos próprios ideais, despertou em mim a coragem serena e a perseverança pulsante nas causas e nos ideais que me despertam constantemente para a minha trajetória. Uma voz que se tornou um som dentro de mim. A coragem, a desinibição e a honestidade dessa voz é uma constante no questionamento e na discussão de pressupostos predominantes. Ouvimos muitas vezes nos últimos meses “Vamos debater! Vamos debater abertamente!” Há também uma serenidade de seguir adiante, acreditando, porque o tempo para a concretização das causas e dos ideais não é o tempo da nossa individualidade. Por isso é voz de serenidade. Essa voz me fez sentir a palavra utopia de uma forma nova. A deliberação de crer continuadamente em uma mudança. Mas crer de forma crítica e lúcida. Por isso é voz de pulsação.
Com o termo lucidez que aqui surge, eu finalizo meu pequeno texto falando o nome dessa voz: Luciana. No título o nome está escrito em minúsculas porque a voz dela se tornou um atributo (luciana) para as nossas consciências. Quantas consciências sequiosas de um mundo diferente e mais amoroso não serão contagiadas por esse vozear ou por vozeares semelhantes? Quantos eu não sei, mas certamente eu estou. E – na mais respeitosa observação – mesmo que eu não vá pelos caminhos da militância política e do socialismo, a via que eu escolhi também conduz para a liberdade e para um mundo melhor. Gratidão pelo seu vozear. Gratidão pela luciana. Não podemos nos retirar da luta jamais, diz e dirá a voz.

É la voglia di cambiare la realtá che mi fa sentire ancora vivo.


Santa Maria, 13 de novembro de 2014

sábado, 11 de outubro de 2014

Na fila do supermercado

Organizava minhas compras sobre o balcão do caixa do supermercado para rapidamente me livrar da cestinha que pendia em meu braço. O ato apressado fez com que uma compra minha fosse passada junto com as da moça que estava sendo atendida. Entre pedidos de desculpas, o meu item foi desmarcado da relação de compras dela, e no instante seguinte minhas coisas começaram a ser registradas, e sorrindo disse: “Nada que não pudesse ser solucionado!
Acho que muita coisa pode ser solucionada, menos uma”, disse a atendente.
Perguntei que coisa era essa, e ela disse: “A morte.”
Pareceu-me que ela fez questão em mencionar tal fato. Talvez tenha perdido alguém querido, mas como não a indaguei, então estou apenas conjeturando. Eu parei, pensei e disse: “Em certos aspectos, a morte tem solução sim, se caso existir a reencarnação.”
Será que existe?” perguntou ela com um sorriso.
E eu disse que sim, que inclusive existem provas que sugerem tal fenômeno, crianças que afirmam lembrar de vidas passadas, fornecendo informações precisas de pessoas falecidas, cujo conhecimento não foi adquirido pelos meios comuns.
Ela me olhou muito surpresa enquanto eu pegava minhas sacolas com as compras, e então eu disse antes de ir: “Algum dia voltamos, todos voltaremos.”
Ao sair do mercado fui tomado pela curiosidade de por que ocorrera o diálogo com a atendente. Qual o sentido que há por trás do acontecido. Sou um daqueles que acham que a vida não se esgota no material, mas que há muito mais coisas. No caminho de retorno para casa resolvi escrever este pequeno relato.

(escrito em 11 de maio de 2012)