quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

„Um baile de máscara“






Era um baile de máscara. Os novatos do curso das humanas queriam entrosamento com seus veteranos. Coisa de estudante que tem móbil para esse tipo de encontro.  Eu era do mesmo curso, mas um grau além. Nunca afeito a festas ou a vida social, mas estava ali. Misturei-me entre a gente, vestido com uma camisa escura e terno preto sem gravata, usava uma máscara que cobria quase todo meu rosto. Se me chamassem de fantasma da ópera seria uma gentileza à minha péssima capacidade de me fantasiar. Estava ali para conhecer novos ares, observar nova gente. Há pouco tempo fiz daquela terra minha nova morada, provisória, até que me formasse. 

Ali, naquela noite, era possível encontrar alguém, certo alguém muito especial. Fazia tempo que não nos falávamos. E ela nem suspeitava que eu já me encontrasse na sua proximidade.  Era possível nos encontrarmos, mas quanto provável era a possibilidade, eu não sabia.

Distraia-me observando as cores e a criatividade dos presentes.  Meu pensamento não tinha um objeto determinado, nem eu tinha parada, perambulava ou me esgueirava entre os festejadores. Entretanto, quando alguém passou a alguns metros não muito longe de mim, minha atenção e minha visão concentraram-se rapidamente naquela presença que me parecia muito familiar. Meu pensamento saiu do absorto para a atenção focada naquela moça fantasiada de hippie. Eu não vi seu rosto, mas seus cabelos negros eram muito familiares. O jeito, a totalidade captada intuitivamente, era conhecido. Ela se distanciou com algumas companhias, enquanto eu acompanhava o seu andar até entrar numa porta, dobrar e sumir da minha vista. Eu fiquei me interrogando se o possível se tornara provável. 

O barulho da festa e a agitação já estavam me incomodando. Ao lado da estante do som, havia uma escada que conduzia ao andar de cima. Retirei-me para observar, sozinho, a lua e a noite, através da janela daquela pequena salinha. Afastei minha máscara, e a coloquei em cima de uma mesa. Era fácil eu me distrair de toda gente e mergulhar no silêncio ou em algum pensamento. 

Ouvi passos. E uma voz tentando se comunicar por celular, já que o barulho impedia de falar claramente. Quando olhei para trás e ela também percebeu a minha presença, exclamamos: – Você! A surpresa misturada com felicidade irradiava naquele local, naquele momento, porque era a primeira vez que estávamos nos vendo, pessoalmente, presencialmente. Abraçamos-nos bem forte, nos olhamos nos olhos; silenciamos. 

Ela me disse:  – Me beija?

E eu, sim!